


..........Cornélio Pires resolveu organizar a sua "Turma Caipira". Estava disposto a registrar em disco, a autêntica música caipira. Cornélio ao contrário do que alguns dizem, querendo diminuí-lo, não era um mero comerciante, preocupado em vender, em encher o bolso, mas era antes de tudo, um folclorista, preocupado sim, com a preservação da memória musical de nosso país. Vendia mesmo, pois aliado ao seu talento, estava o gosto popular. |
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Era um "show-man". Joffre registrou em livro biográfico "A VIDA PITORESCA DE CORNÉLIO PIRES", o que o escritor Afonso Schimidt disse a respeito: "Cornélio Pires aonde chegava era uma festa. Escreveu livros cujas edições se multiplicavam. Foi talvez em determinado período, o mais conhecido dos escritores vivos. No meio disso,exerceu o jornalismo, publicou almanaques. Depois se dedicou ao comércio, a indústria. Ganhou e perdeu |
..........O Movimento Modernista procurava despertar uma consciência nacionalista em tudo. Era uma busca às raízes. Cornélio Pires que desde 1910 abraçara essa "causa", não perdeu a oportunidade de mostrar a arte caipira através do disco. Como escritor, já firmara nome no. ..........O diretor da Colúmbia - representante local da Byington & Company - era o americano Wallace Downey, que mais tarde, em 1931 interessado pelo Brasil, seria o produtor do filme "COISAS NOSSAS". Ariovaldo Pires, o saudoso Capitão Furtado, sobrinho de Cornélio, era o intérprete (falava bem o inglês), de Downey. Cornélio pediu ao sobrinho que lhe encaminhasse a Downey. Mas este só tratava da fase preliminar dos negócios da gravadora. Encaminhou Cornélio ao escritório do Dr. Alberto Jackson Byington JR., o proprietário da empresa. Propôs a gravação de anedotas e de músicas caipiras. Contou, o Capitão Furtado que o empresário lhe disse: .........."Gravar em discos anedotas e violeiros? Isso é mais uma piada sua". .......... "Não há mercado para isso, não interessa". Cornélio insistiu. "E se eu gravar por conta própria"? Aí Byington Jr. tentou opor dificuldades: "Bem, |
nesse caso você teria que comprar mil discos. Quero dinheiro à vista, nada de cheque, e se o pagamento não for feito hoje mesmo, nada feito". Era uma forma, note-se, de descarte peremptório ou, em outras palavras, propostas de quem não quer mesmo fazer negócio". .........."Cornélio Pires fez com Byington o cálculo de quanto custaria os mil discos e saiu. Foi à procura de um amigo seu na rua Quinze de Novembro (centro de São Paulo), um tal de Castro, e pediu-lhe o dinheiro emprestado. Retornou logo em seguida à sede da empresa e, entrando na sala de Byington Jr., jogou sobre a mesa deste um grande pacote emaçado em jornal. "O que é isso"?, perguntou-lhe Byington espantado. "Uai, dinheiro"! Você não queria dinheiro?, respondeu Cornélio. Byington abriu o pacote e não disfarçou o seu assombro: "Mas aqui tem muito dinheiro"! "É que, ao invés de mil discos, eu quero cinco mil", explicou Cornélio Pires". .........."Meio atudido, Byington Jr. tentou convencê-lo de que cinco mil era muita coisa, era "uma loucura". Naquele tempo não se faziam prensagens iniciais em tais quantidades nem para artistas famosos! Cornélio, porém, foi mais além no espanto em que deixou o |
dono da gravadora: "Cinco mil de cada, porque já no primeiro suplemento vou querer cinco discos diferentes. Então são 25 mil discos". ..........Aqui há um engano, que quase todos os pesquisadores têm repetido. No primeiro suplemento saíram 6 discos diferentes. Em vez de 25 mil discos, foram lançados 30 mil discos, em maio de 1929, segundo fontes concretas, prestadas pelo criterioso pesquisador, o professor NIREZ. A confusão se faz e é evidente que se faça, porque em outubro de 1929, no segundo suplemento, é que o Cornélio lançou 5 discos, com também cinco mil de cada, totalizando dessa forma, os 25 mil discos. ..........Fez o pagamento, pegou o recibo, e estabeleceram o seguinte contrato: os 30 mil discos, da primeira prensagem, teriam uma SÉRIE ESPECIAL, sua, a "SÉRIE CORNÉLIO PIRES", partindo do número 20.000, com o selo vermelho, custariam 2 mil réis a mais, do que os de Byington, e somente Cornélio poderia vendê-los. ..........Acertado as bases, Cornélio viajou a Piracicaba e de lá trouxe à Capital a sua "Turma Caipira", para participarem da gravação, com três músicas. |
..........A "Turma Caipira Cornélio Pires" (em sua 1ª fase) era composta por Arlindo Santana, Sebastião Ortiz de Camargo (o Sebastiãozinho), Zico Dias, Ferrinho, Mariano da Silva, Caçula e Olegário José de Godoy (o Sorocabinha). O Sorocabinha com seu pai Juca Sorocaba eram autênticos representantes da cultura caipira. Trabalhavam na roça como lavradores. |
dinheiro como água. Uma só coisa não perdeu na barafunda desta cidade; a maneira gentilíssima de ser namorado da terra em que nasceu". ..........Em fevereiro de 1929, a Colúmbia lançara no mercado fonográfico os seus discos. Cornélio botou a idéia na cabeça de gravar em disco, as suas anedotas, interpretadas por ele mesmo, e algumas "modas caipiras", interpretadas por autênticos violeiros da região de Piracicaba. Conhecedor do folclore, sabia que em Piracicaba havia bons violeiros. Residira naquela cidade em 1914. Já conhecia José Sorocaba, Sorocabinha, Sebastiãozinho Camargo e Nitinho Pintô (este falecido em 1926), pois com estes violeiros fizera apresentações na Capital de São Paulo. Conhecia também o trabalho de Mandy, de quem recebera vários poemas, através do seu amigo, o saudoso escritor Thales de Andrade, e publicara em seu livro "MIXÓRDIA" (em 1927). ..........Organizou a "Turma Caipira Cornélio Pires" no início de 1929. Levou-os a São Paulo para fazerem uma temporada, no bairro de Vila Mariana, no Cine Paulicena. Dizia Cornélio Pires: .........."A música argentina, o tango, está invadindo São Paulo. Como brasileiros, nós temos que reagir. Não somos contra o tango, mas temos que mostrar a nossa música, a "moda de viola", ritmo autenticamente nosso". |
..........O Arlindo Santana, o Lino Pinto de Sant´Anna, nasceu em Piracicaba no dia 23 de setembro de 1892, radicando-se em Rio Claro, onde faleceu paupérrimo em 1979, sem ajuda, segundo denunciou o Sorocabinha. Para Tonico e Tinoco, foi um inspirado compositor de "modas de viola". Foi ele que inventou os pios, que saíam nas gravações do Cornélio. Macedo Dantas visitou-o quando realizava as suas pesquisas, registrando em seu livro (já citado): "Era fabricante de pios para caça e ainda fabricava enormes berrantes de boiadeiro, apesar dos 83 anos. Violeiro, trovador e compositor sertanejo, tomou da bela viola e cantou alguns versos de sua autoria, afinadamente. Velho forte, apesar de ter sido atropelado duas ou três vezes em São Paulo, gravemente, nestes últimos anos, quando veio vender seus berrantes, velho simpático, |
lúcido, digno da sua pobreza de artista desamparado, a merecer uma pensão oficial. ..........Mariano da Silva (o pai do famoso acordeonista Caçulinha) que formava dupla com seu irmão Caçula (José da Silva) eram autênticos violeiros (cantadores), trabalhavam de pedreiros. Andavam de pé-no-chão, conforme nos informou Sorocabinha. O Ferrinho (Antônio da Silva) irmão por parte de pai, de Mariano e Caçula, era lavrador, tocava "puíta", e formava dupla com Zico Dias, que tocava percussão (chamado de "caixa" naquele tempo). Este, motorista de táxi, em Piracicaba. O Sebastião Ortiz de Camargo (o Sebastiãozinho) tocava viola e reco-reco. Era cortador de cana e lavrador. Todos esses artistas eram de Piracicaba. ..........Essas duplas Caçula e Mariano, Ferrinho e Zico Dias, na década de 30, |
depois dos discos de Cornélio Pires, gravaram muitos discos independentes. O Caçula faleceu em Olímpia, SP; porém não podemos precisar a data. O Mariano em 1936 formou dupla com o barbeiro Luizinho (Luís Raimundo, autor em parceria com Teddy Vieira, do cururu "O Menino da Porteira"), que mais tarde integrou o famoso trio LUIZINHO, LIMEIRA E ZÉZINHA e gravaram em 1940 pela Colúmbia. Formou dupla com Laureano, transformando-se no "Quarteto Sertanejo", com a inclusão de Rielinho e Nhô Pai. Depois formou o "Trio Sertanejo" com Rielinho e Serrinha. Fez parte de um trio com Serrinha e Raul Torres. A última dupla que Mariano formou, foi com o Cobrinha. Com este gravou cinco discos de 78 RPM e um LP, morrendo em 1970. |
..........Os primeiros seis discos, gravados por Cornélio Pires, na Colúmbia, foram lançados em maio de 1929 (que saiu a gravação). A gravação certamente foi em março de 1929. Eram 12 gravações com 9 números de "humorismo", declamado pelo próprio Cornélio. Entre eles, está o poema "Batizado do Sapinho", "Verdadeiro Samba Paulista", "Desafio entre Caipiras" e Danças Regionais Paulistas" (Cana-verde e cururu) - são danças recolhidas do folclore paulista, por Cornélio Pires, interpretadas pela "Turma Caipira Cornélio Pires". Esses discos receberam a numeração de nº 20.000 a 20.005. ..........Na segunda gravação, saíram cinco discos, em outubro de 1929. Vão do número 20.006 a 20.010. E, no primeiro, de um lado está "Como Cantam Algumas Aves" (imitação de aves) - interpretação do Arlindo Santana (o homem que imitava aves e bichos); e, do outro; "Jorginho do Sertão" com Mariano e Caçula, a primeira MODA DE VIOLA, gravada no Brasil, lançada em outubro de 1929. |
"O Jorginho do Sertão - Sua conta não te dou Logo veio a do meio Na hora da despedida, ai, ai, |

..........Em 5 de abril de 1929, o jornal "O ESTADO DE S. PAULO", estampou um clichê, da TURMA CAIPIRA CORNÉLIO PIRES", onde aparecem, da esquerda para direita, em pé: Ferrinho, empunhando a "puita", Sebastião Ortiz de Camargo, Caçula, Arlindo Sant´Anna; sentados: Mariano, Cornélio Pires e Raul Torres, que se apresentou algumas vezes com a "Turma" ..........Traz uma nota sobre as apresentações dos artistas e diz que o Arlindo Sant´Anna iria fazer imitações de "vozes da mata virgem, de macaco, jaó, tocava, uru, mambu-chitã, mambu-chororó e mambu-guaçu". ..........O Raul Torres que aparece na foto, se apresentou algumas vezes com a TCCP. O Raul não fazia parte da "Turma". Era um cantor de "emboladas", um ritmo nordestino. Cornélio Pires convidou-o em 1929 para também gravar na sua "Série Cornélio Pires", onde aparece com o pseudônimo de BICO DOCE e Sua Gente do Norte, com a "embolada" de sua autoria "Galo Sem Crista", seguindo-se de outras gravações no selo vermelho do vate de Tietê. |